
Talvez eu não seja tão boa com as palavras como você. O nosso dialeto, embora seja ele da mesma região, é completamente diferente. Não li livros como você e nem tampouco guardo na memória aquele filme que marcou minha infância como Ponte para Terabitia.
Eu não escuto Chico Buarque como você. Na verdade não ouço, prefiro as canções que já fogem do seu escalão de baixo nível cultural, e eu não me sinto menor por isso. Não saio por aí dizendo aos quatro cantos que sou tudo que aparento e muito mais, que paguem pra ver que a satisfação é garantida e sim, eu não me valorizo grandiosamente como você.
A palavra da minha mãe não é a ultima pra mim, ninguém dita as minhas regras ou a hora que eu devo estar em casa, e isso você não faz como eu. Você não cozinha comidas que além de agradarem o paladar, grudam na memória bons momentos servidos, e isso você também não faz como eu. Você não lava, passa, arruma seu quarto ou lava suas calcinhas, como eu faço, e eu sei que você também não se sente menor por isso, por que aí tá justamente a nossa diferença e a sentença que nos une.
Então pra que tantas perguntas e afirmações se quando nossos corpos se encontram a lei é uma só? Não há música, não há comportamento ou comida que seja superior a todas aquelas sensações vividas a dois, nada, por mais grandioso que seja, supera o prazer que a gente se dá, e só a gente pode saber. Então pra que expor as diferenças se o mais importante de tudo isso é esse laço que fita os nossos olhos quando a gente se vê? Depois disso nada mais importa, pra gente, e pra ninguém.
Não é apenas um silêncio, não é apenas um drama, não é apenas um choro, não é apenas um sumiço… É um cansaço, é uma desistência, é um pedido de ajuda não atendido, é saber que alguém não sentiu sua falta, é uma decepção, é não achar a pessoa no momento certo. Então, não me pergunte porque eu me afastei, pois quando eu precisei falar com alguém, você não estava lá.

